Home » Pessoal

Preferências

Written By: Daniel Becher on setembro 26, 2007 5 Comments

Por várias vezes tentei especificar uma música preferida de César Oliveira e Rogério Melo. Não foram poucas. Uma das minhas frustrações é não lembrar exatamente onde consegui as músicas do CD Pátria Pampa, ou melhor, qual foi a motivação ou o impulso que eu tive de saber quem era César Oliveira e Rogério Melo ou, ainda, o que teria dentro de “Pátria Pampa.” (o nome deste blog e o nome do primeiro CD que eu ouvi deles, não é mera coincidência).

Mas eu me lembro exatamente do primeiro momento que eu ouvi as músicas deles. Eu lembro exatamente onde estava, como estava, como estava a temperatura, as condições de iluminação, tudo, a memória é fotográfica. E lembro quais as músicas que mais me chamaram atenção. A primeira delas foi Retrato de Pampa e Invernada. É inolvidável a viradinha que a música dá na parte em que repetem o “Da invernada do Lagoão até o Potreiro das casas, pouco mais de meia braça de várzea, trevo e coxilha“. Menos ainda esqueço que pra decorar, nas primeiras três vezes em que executei aquele MP3, o trecho “várzea, trevo e coxilha” eu enrolei um bocado a língua. Tivesse eu conhecido esta música no CD original, seria mais fácil. Meses depois soube que era mais lenta e mais tranquila prá cantar.

Das Volteadas de uma Estância, em algum momento, também esteve liderando a preferência. “Castigam a alma de um guapo pois o lombo do cavalo não é bem o que se acha” também foi bastante complexo pra minha cabeça ainda despreparada para aquelas palavras tão complicadas e lindas. Um misto de admiração e complexidade tomavam conta quando eu cantava. Insisti. Consegui. A preferência durou mais alguns momentos até que as declamações começaram a virar o foco.

Como eu gosto das declamações antes das músicas. “Lindera ao passo velho do Toro Passo… desde os tempos da linha férrea…”, “Era tordilho o malabruja que lhes falo, bulido não sei de quem e por uns quantos refugado…“, “Inda nem rompeu a aurora nos confins co firmamento…“. Era uma obsessão decorá-las. Eram imponentes, afirmativas, eram palavras de ordem de um campeiro que nunca fui.

No intervalo entre uma e outra passei a olhar e escutar com olhos e ouvidos diferentes a composição “Lá na Fronteira“. O solo da guitarra macharrona de Marcello Caminha são entorpecentes, paralisantes e a cadência musical de “A vaca xucra esconde a cria na macega e a cavalhada não nega que por lá hay domador…” é emocionante. Não só a letra que por si só é responsável por grande parte da comoção que a canção causa, mas as vozes são importantes também no processo de marcá-la e César Oliveira e Rogério Melo dispensam justificativas neste sentido. “Lá na Fronteira os Tarras por contingência, contrabandeiam querência, ora pra um lado, ora pra outro…“.

Em dois momentos vi Rogério Melo dar entrevista e falar que “a nossa música é simples“. Mas analisando bem a fundo, sob um prisma mais crítico e filtrado, posso afirmar sem pudores que a simplicidade da música deles é relativa. É simples da maneira que cantam, pois é expontâneo e sincero. Mas é complexa não só pela dificuldade que um catarinense leigo no assunto tem ao ouvir pela primeira vez tais palavras, mas pela quantidade de alma e paixão (e paixão aqui tem um sentido muito mais amplo que de uma paixão como sinônimo de gostar de algo) que o escritor emprega conseguindo transmitir simplicidade dentro desta complexidade. Isso é meio paradoxo, até.

Lá na Fronteira com certeza ainda me emociona muito e é uma das que eu mais gosto de ouvir, mas de uns tempos pra cá, conhecendo o histórico musical dos tauras eu fico indeciso em escolher uma. É difícil dizer que a música X ou a música Y é a melhor. Conhecer uma gama grande de músicas de artistas como César Oliveira e Rogério Melo é como se municiar para uma guerra diária, onde você passa por momentos bons e momentos ruins, momentos de tristeza e de alegria e para cada momento tão único e individual, uma música se encaixa bem.

Quantas vezes estava indignado com alguém, soltando fogo pelas ventas e pensando em desistir de algo que não valia a pena lutar e ouvia Tango do Bochincheiro e como uma injeção de ânimo a música me tornava a valentia, a força, a coragem. “Um gaúcho morre seco e não se entrega”. E isso se evidencia em vários momentos. Roçando as Viria, Prá Bailar de Cola Atada e Cabanha Toro Passo são garantidas naqueles momentos de celebração, de alegria.

Conhecer o legado de César Oliveira e Rogério de Azambuja Melo não te permite escolher uma música, pois elas se fecham num todo, numa sequência lógica e racional. Não são partes desconexas apesar de nem sempre cantarem juntos, apesar de nem sempre os mesmos compositores participarem de igual forma em todos os CDs. Aliás, o trabalho desses homens não são músicas, não são CDs ou DVDs, não são partes. O trabalho todo deles é uma música só, em uníssono reverberando nos ouvidos e na alma dos mais rudes e incrédulos. E esta é a preferência maior.

Digg this!Add to del.icio.us!Stumble this!Add to Techorati!Share on Facebook!Seed Newsvine!Reddit!Add to Yahoo!

5 Responses to “Preferências”

  1. Fernando MS - Pulga says on: 26 setembro 2007 at 4:56 pm

    Não é pra menos que o César Oliveira falou de você, na entrevista dada a Radio Tertúlia, falando a respeito da tua sensibilidade. Nunca havia lido uma crítica, em se tratando de músicas, com um apelo emocional tão grande.
    Parabéns! e grande abraço!

  2. Lia says on: 29 setembro 2007 at 1:17 pm

    Concordo c/ Fernando, pra quem acompanha o trabalho desse dupla como eu, ao ler sua palavras se emociona, acredito que o mesmo acontece com eles, deve ser gratificante ter o trabalho tão bem valorizado…Parabéns!

    Um abraço
    Lia/LAJEADO-RS

  3. Wolmir says on: 5 outubro 2007 at 11:58 pm

    Essa é a música gaúcha de qualidade. Moro no Mato Grosso e tenho alguma dificuldade em comprar cds e dvds de músicas gaúchas. Semana passada comprei um DVD (pirata) do Tchê Barbaridade. Mas bah, que decepção. Se não fosse pelos caracteres do vídeo eu pensaria que estava assistindo um show de Axé e vendo a Ivete Sangalo de calça amarela.

  4. Junior Radaeli says on: 11 outubro 2007 at 8:56 pm

    BUenas….
    Venho através desta parabenizar a ti.. por este texto tão bem redigido… e tão bem interpretado..à respeito destes cantores.. destes artistas maravilhosos que são César Oliveira e Rogério Mello…. comecei a gostar da música gaúcha desde 1996…. hoje sou apaixonado por ela… ja ouvi vários artistas… mas a fibra que César Oliveira e Rogerio Melo colocam em cada canção é muito vibrante…. é forte… te impulsiona a ficar com um astral sempre pra cima… sempre com uma boa cara…estou louco para comprar o segundo dvd deles… já tenho o primeiro e AMEI..
    Um grande abraço colorado a toda esa patriada gaúcha….
    e Sinto muita saudades do RIo Grande do Sul…. este pago fronteiro lindo e tão querido que é.

  5. Renato prates says on: 5 dezembro 2007 at 10:27 pm

    César , eu queria saber como faço para achar algumas declamaçoes voce tem algum site para me indicar?quero saber alguma para declamar para colegas da minha empresa só que nao sei onde acho , voce pode me ajudar ? um abraço

Leave a Reply:

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Copyright © 2009 César Oliveira e Rogério Melo – Pátria Pampa, All rights reserved.| Powered by WordPress| Blu Mag theme by Techblissonline.com